terça-feira, 11 de novembro de 2008

ARTE E ENTRETENIMENTO
Cultura em tempos de crise
Publicado em 09.11.2008

A pergunta que ronda o setor é se a crise na economia norte-americana privará o recifense de grandes atrações


Mirella Martins
Especial para o JC


A pergunta é inevitável: se diversos setores, em todo o mundo, se mostram inquietos em relação aos reflexos que a crise na economia norte-americana trará, por que com a cultura e o entretenimento seria diferente? Especulações e dúvidas começam a circular entre artistas e produtores. Eles vigiam o horizonte para rastrear, ao longe, os principais indicadores de instabilidade. Alguns já se fazem notar. As casas de leilão Sotherby´s e Christie´s amargaram lucros menores, neste final de ano, considerando que, desde 2005, vinham batendo recordes na arrecadação. Na última participação, a Christie´s só conseguiu vender 21 dos 47 lotes postos à venda, arrecadando apenas US$ 55 milhões em vez dos esperados US$ 132 milhões. Segundo quem entende do riscado, o momento é de cautela, mas não de desespero. No Recife, por exemplo, inúmeras atrações internacionais – pagas em dólar e com alto custo de realização – estão sendo mantidas e a expectativa é de que shows como o de Charles Aznavour, que encheu os olhos dos recifenses, continuem acontecendo.

CRISE E CULTURA
De olho no que promete o futuro
Publicado em 09.11.2008

Produtores garantem que impacto da crise ainda não foi sentido, mas acreditam que ele virá a médio e longo prazo e se preparam para isso

No Brasil, os diversos setores da economia ainda não perceberam movimentação negativa com a crise que se abateu sobre os EUA e espalha seus reflexos mundo afora. Os produtores garantem, no entanto, que o impacto virá a médio e longo prazo, principalmente, pela alta na cotação do dólar.
Na área de cinema, por exemplo, o aluguel de equipamentos fica mais caro. Segundo João Júnior, da Rec Produtora, a crise chegará, mas não ainda este ano. “Os produtores se utilizam de fundos internacionais para desenvolvimento de projetos. Essas empresas possuem verbas anuais programadas. Para 2009, os investidores devem ficar mais cautelosos com o valor a repassar para essas instituições”, explica. Para driblar esta realidade, João Jr. aposta na criatividade para conquistar outras formas de financiamento, seja diminuindo a equipe ou trabalhando com um orçamento mais baixo.
A programação de shows e exposições também sofre porque os contratos são pagos em dólar, de acordo com o preço da moeda na data da apresentação. Passagens também são pagas em moeda estrangeira. Depois de vinda de bons shows no Brasil este ano – Aerosmith, U2 e Madonna, para citar apenas três – o País pode voltar ao hiato mercadológico em relação ao cenário internacional, se o preço da moeda americana continuar a subir.
A Mondo, que trouxe Ben Harper, Dave Mathews Band e está trazendo R.E.M. esta semana, afirma que, até agora, nada foi cancelado. Segundo seu produtor, William Crunfli, cautela é o sentimento do momento. “Existem três grandes shows “gringos” para janeiro e fevereiro que não foram fechados por conta da volatilidade do mercado. Estamos no aguardo”, avalia.
No Recife, o sentimento é o mesmo. Para o gerente de marketing da Chevrolet Hall, Manolo, a casa possui um calendário anual de 24 shows por ano, sendo quatro internacionais. “Este ano, já trouxemos Scorpions, Charles Aznavour e já começamos a vender BJ Thomas para o dia 5”, adianta. O executivo teme que o preço alto do dólar aumente os valores dos cachês, inviabilizando futuras contratações. “Temos mais dois nomes para trazer no começo de 2009, mas resolvemos esperar mais um pouco para ver se o cenário melhorar”, avalia.
O produtor João Marinho, da Black Out Discos, responsável por trazer as principais bandas de metal para apresentações no Recife, não sente – ainda – qualquer prejuízo por conta do aumento do câmbio. “Tinha pago o cachê do Symphony X desde abril com dólar a R$ 1,60”, comemora. Para ele, a alta da moeda não poderá ultrapassar o teto de R$ 2,10 para não prejudicar futuras negociações. “Tenho agendada uma outra banda para janeiro, mas já paguei a metade”, antecipa o empresário, que já trouxe nomes como Angra, Kreator, Destruction e Possessed.
Gustavo Agra, da Art Rec, é mais confiante. Acredita que o mercado se adapta às diferentes realidades. Em Cuba, onde está fechando novos projetos, o empresário começa a concluir a agenda de shows para o próximo ano. “Temos usado o argumento da crise para baixar os cachês, mas as companhias de dança não são sensíveis a esta realidade. O jeito foi cancelar algumas coisas que estavam pré-agendadas como o Ballet Moderno da Ucrânia e a Ópera Nacional da Rússia”, explica. Ele acrescenta que ainda estuda a possibilidade de produzir localmente o Momix, o Phillobolus e o Béjart Ballet, mas precisa de patrocínio, tanto público quanto privado. Mesmo com discurso pouco animador, o produtor garantiu Ballet Nacional de Cuba, Ballet Imperial da Russia, o Ballet de Marseille e a Orquestra Nacional da França.


CRISE E CULTURA
Mundo busca alternativas criativas
Publicado em 09.11.2008

A nada modesta quantia de 39 milhões de dólares foi quanto o banco Lehman Brothers, que entrou em colapso há dois meses, doou para o MoMa, um dos mais respeitados museus em Nova Iorque. A ausência deste e de outros mecenas – que foram arrastados pela quebradeira bancária nos EUA – gerou especulações: qual, e com que intensidade, será o abalo sentido no mundo das artes? Estaria este tipo de filantropia com os dias contados?
Na Alemanha, empresários aproveitam este momento para melhorar a imagem desgastada de suas empresas, investindo em arte como forma de atingir este objetivo. Segundo o economista Michael Hutter, do Centro de Pesquisa de Ciência Social em Berlim, este paradigma funciona melhor em companhias com pouca visibilidade de mídia, tais como seguradoras (normalmente consideradas as vilãs em caso de situações problemáticas). O Deutsche Bank tinha programado exposição de esculturas e pinturas da época renascentista para o final do ano, mas resolveu antecipar o lançamento, aproveitando o caos no mercado financeiro. Sobre o futuro, ninguém fala, sequer especulam, preferem evitar qualquer tipo de garantia a respeito da manutenção na política de favorecimento às artes. Analistas acreditam que o setor cultural sofrerá com esta recessão a médio e longo prazo, mas o impacto em relação às artes visuais será menor. Na Alemanha, a maior parte dos investimentos culturais é estatal.
Em Moscou, o tom da conversa é “o que fazer para diminuir perdas?”. Entretanto, não se fala em recessão. Semana passada, o maior produtor de séries de TV russa anunciou que todos os projetos ficarão em stand by. O motivo é a incerteza do cenário, acrescida ao medo de uma possível falta de anunciantes. Já o pessoal das artes cênicas aposta na criatividade para reverter a situação. A receita do sucesso é o marketing cultural. Peças da Broadway e do circuito Hollywood criaram um slogan “pague o que pode”. Funciona assim: você paga o que acha que vale/ou tem para pagar (o valor em média custa 50 doláres, mas o mínimo é de 1 dólar). No entanto, esta ação só é válida para as sessões matinês. O resultado está sendo positivo: casa cheia e ingressos na média de 20 dólares.
Com o mote “Relaxe em época estressante”, a idéia dos produtores é criar para o público uma alternativa para um colapso nervoso, em outras palavras, uma válvula de escape. Os musicais são os mais procurados. Idéia semelhante aconteceu em Londres, durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade sendo bombardeada e os teatros cheios. Segundo especialistas americanos, há pesquisas que comprovam que, durante a crise, as pessoas tendem a gastar mais em entretenimento.
Ironicamente, poucos filmes foram lançados nesta temporada de oscilação cambial. Produtores começam a procurar outras fontes de financiamento para os seus projetos, em substituição ao fundos de investimento e aos bancos. Enquanto isso, em Hollywood, a palavra crise não é citada. Em meados de 2009, já está previsto o lançamento de mais de 40 filmes. E mais: os estúdios já asseguraram milhões de dólares para Avatar, de James Cameron, e Homem de Ferro 2, de novo com Robert Downey Jr. como protagonista. Ambos projetos serão para entre 2010 e 2011.
Outras produções de grande expectativa nesse período são Edwin A. Salt, com Angelina Jolie, Alice in Wonderland, de Tim Burton, A-Team, RoboCop, de Darren Aronofsky, Thor, de Kenneth Branagh, a sequência de Sex and the city e Nottingham, a nova colaboração entre Ridley Scott e Russell Crowe.


CRISE E CULTURA
Cultura mantém estreita relação com a economia
Publicado em 09.11.2008

Segundo o escritor Affonso Romano Sant’Anna, a aproximação entre economia e arte é exemplar e didática. “Não se pode falar de arte sem falar de mercado e economia, e não se deve falar de economia e mercado sem falar de arte conceitual”, analisa. Para o escritor, a frase “a arte imita a vida, a vida imita a arte” pode ser aplicada agora à economia.
“Em 1919, Marcel Duchamp fabricou um cheque para pagar uma dívida, depois criou também por sua conta “ações” do Cassino Monte Carlo. Exatamente como esses bancos americanos estão fazendo agora dando um prejuízo mundial incalculável nas bolsas de valores, posto que só nos Estados Unidos a falcatrua beira um trilhão de dólares”, argumenta Sant’Anna.
Se você quer entender ou passar ileso à crise, vale – e muito – buscar uma ajuda nos livros. Passe numa livraria e procure algo para lhe proporcionar maior segurança. Na Livraria Saraiva, do Shopping Recife, o aumento de vendas está interligada a área de auto-ajuda. “Antes do estouro da crise, estávamos com uma procura, além do previsto, em relação a títulos sobre a Bolsa de Valores, agora isso mudou, vende-se mais obras de auto-ajuda”, explica a gerente Tânia Cavalcante. Investimento inteligente é um dos mais procurados na loja. Prova disso é sua inclusão na lista dos mais vendidos da Revista Veja.
Segundo a Amazon, maior livraria da Internet, houve um aumento em relação aos títulos financeiros. A bola de neve, primeira biografia autorizada do bilionário Warren Buffett (cujo fundo Berkshire Hathaway já investiu 8 bilhões no Goldman Sachs e na General Electric) tornou-se um best-seller em Nova Iorque.
GOVERNO
O Ministério da Cultura anunciou que o orçamento 2009 será os mesmos R$ 800 milhões previstos para 2008. Até um mês atrás, durante sua visita ao Recife, o titular da pasta, Juca Ferreira, afirmava que a crise financeira mundial não teria efeitos negativos no seu prognóstico. Ele confirmou que há um movimento no Congresso Nacional para que o governo reduza seus gastos em 2009 para enfrentar a crise.
A esperança do ministro é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva priorize a Cultura. “Acho que seremos poucos afetados porque nossa área se insere no campo social. Tenho expectativa de que o corte não seja significativo. Se não reduzir, já será positivo”, avaliou. Para superar os efeitos da crise, Juca Ferreira propõe pedir socorro às empresas públicas e privadas do País.
Segundo o analista financeiro Roberto Ferreira, existe uma diferença entre o valor nominal e o valor real do orçamento destinado à Cultura. O primeiro permanece o mesmo, mas o segundo (o poder de compra) teve um decréscimo por conta da inflação do período (cerca de 5%). Com isso, o orçamento valerá R$ 761 milhões.
Por outro lado, a maior empresa brasileira, a Petrobras anunciou um novo investimento de R$ 40 milhões para seu programa Petrobras Cultural até o final do ano, apesar da volatilidade das bolsas. O valor liberado é de R$ 40 milhões, que se soma aos R$ 38 milhões já então liberados para esse ano. De acordo com o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, esses projetos têm grandes impactos sociais no País e não podem ser afetados pela crise e, portanto, devem estar imunes aos efeitos, que podem surgir nos próximos meses. (M.M.)


Matéria publicada no Jornal do Commercio do dia 09.11.2008